Bactérias bucais podem sinalizar risco de câncer de pâncreas

A quantidade de bactérias na boca pode estar associada ao risco de câncer de pâncreas.

Isso segundo um novo estudo publicado na revista Gut, que encontrou “associações significativas” entre anticorpos para múltiplas bactérias bucais e o câncer de pâncreas, que é difícil de detectar e mata a maioria dos pacientes num prazo de seis meses a partir do diagnóstico. O câncer de pâncreas é responsável por 40 mil mortes por ano nos Estados Unidos.

Trata-se de uma questão emergente na ciência, dizem os pesquisadores, mas a importância das bactérias no câncer está crescendo.

“Não é um fator estabelecido”, diz a epidemiologista Dominique Michaud, Sc.D. da Universidade Brown, autora do trabalho. “Porém reforça minha crença de que algo está acontecendo. É algo que precisamos conhecer melhor”.

Num estudo com mais de 800 adultos europeus, Dra. Michaud e colegas descobriram que níveis altos de anticorpos para uma das cepas mais infecciosas de bactérias periodontais (Porphyromonas gingivalis) estavam associadas ao risco duas vezes maior de câncer de pâncreas. Além disso, indivíduos com altos níveis de anticorpos para alguns tipos de bactérias bucais inofensivas foram associados a um risco 45% mais baixo de câncer de pâncreas – o que significa que os anticorpos podem ter um efeito protetor.

O corpo gera anticorpos em resposta a objetos estranhos, como bactérias e vírus.

Outra pesquisa identificou ligações entre doença periodontal e câncer de pâncreas, mas o trabalho da Dra. Michaud na revista Gut é o primeiro estudo a testar se os anticorpos para bactérias bucais são indicadores de risco de câncer de pâncreas e o primeiro a associar a resposta imunológica às bactérias inofensivas com o risco de câncer de pâncreas. O mecanismo fisiológico que liga bactérias bucais e câncer de pâncreas permanece desconhecido, mas o estudo reforça a sugestão de que ele exista.

“O impacto da defesa imunológica contra bactérias comensais e patogênicas inegavelmente tem influência”, diz Jacques Izard, PhD, do Instituto Forsyth e Universidade de Harvard e um dos autores principais do estudo. As bactérias comensais são inofensivas, enquanto as patogênicas são prejudiciais.

“Precisamos investigar mais a fundo a importância das bactérias no câncer de pâncreas além do risco associado”, diz Dr. Izard.

Os Drs. Michaud e Izard pesquisaram dados da Investigação Prospectiva Europeia conduzida pelo Imperial College no Estudo de Câncer e Nutrição, um conjunto de dados abrangendo mais de 500 mil adultos em dez países. Nessa população encontraram 405 pessoas que desenvolveram câncer de pâncreas, mais nenhum outro tipo de câncer, e que tinham amostras de sangue disponíveis. Os pesquisadores também selecionaram 416 pessoas de demografia similar que não desenvolveram câncer de pâncreas para comparação.

Os pesquisadores não sabiam quais amostras vinham de pacientes com câncer durante a análise do sangue, que consistia em medir a concentração de anticorpos para 25 bactérias bucais prejudiciais e inofensivas. No modelo e análise do estudo, controlaram tabagismo, diabetes, índice de massa corporal e outros fatores de risco.

Um elemento importante do modelo do estudo foi que a data das amostras de sangue precedeu o diagnóstico de câncer de pâncreas em até uma década, o que significa que a diferença significativa nos níveis de anticorpos provavelmente não eram um resultado do câncer.  Ao contrário, os mecanismos subjacentes que ligam o Porphyromonas gingivalis ao câncer de pâncreas poderiam ser causais, diz Dra. Michaud, embora sejam necessárias muitas pesquisas para compreender essa associação.

Os pesquisadores especulam que a associação dos altos índices de anticorpos para bactérias comensais e câncer de pâncreas possa indicar uma resposta imunológica inata altamente ativa que é protetora contra o câncer.

“Os determinantes genéticos da vigilância imunológica claramente desempenham um papel crítico no desenvolvimento do câncer de pâncreas”, escreveram os autores. “Consequentemente, é plausível que índices elevados de anticorpos contra bactérias bucais nos indivíduos sirvam como um marcador de uma resposta imunológica geneticamente mais forte, o que fornece proteção contra a carcinogênese”.

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